O que estamos ensinando às crianças quando as vestimos de monstros?
Educar o imaginário também é ensinar uma criança a reconhecer aquilo que merece ser amado.
Deixa eu te fazer uma pergunta, de mãe para mãe: você já parou para pensar no que estamos ensinando aos nossos filhos quando escolhemos vesti-los de demônios, monstros e criaturas do inferno?
Eu sei que, para muita gente, é só uma fantasia. Uma brincadeira de outubro, uma festa divertida, uma oportunidade de reunir as crianças e distribuir doces. E não quero transformar essa conversa numa disputa com outras famílias, muito menos julgar as intenções de cada mãe. Mas acho que vale a pena olhar um pouquinho além da fantasia e pensar no que estamos cultivando dentro dos nossos filhos.
Começa quando uma criança aprende a obedecer mesmo quando não quer. Quando aprende a esperar. Quando aprende a terminar aquilo que começou. Quando descobre que nem todo desejo precisa ser imediatamente satisfeito. Quando aprende a pedir perdão, a dizer a verdade, a servir alguém sem receber nada em troca.
Afinal, educar não é apenas ensinar a ler, escrever, contar ou se comportar à mesa. Educar também é formar o olhar, despertar a sensibilidade e oferecer à criança referências que, aos poucos, vão ajudá-la a compreender o mundo e a si mesma.
E é justamente aí que entra o imaginário.
De onde vem o Halloween?
O Halloween, celebrado em 31 de outubro, tem suas raízes históricas mais conhecidas no Samhain, uma antiga celebração dos povos celtas, associada ao fim da colheita e à chegada do inverno. Naquelas culturas, esse período era relacionado à morte e ao mundo espiritual. Havia crenças sobre a aproximação dos mortos e de seres sobrenaturais, e as pessoas usavam fogueiras e disfarces em práticas ligadas a essas crenças.
Com o passar dos séculos, a celebração se transformou. A data passou a se relacionar também com o Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro, e com o Dia de Finados, em 2 de novembro. Mais tarde, costumes de diferentes regiões da Europa chegaram à América do Norte e deram origem a muitas das práticas populares que conhecemos hoje.
É claro que o Halloween contemporâneo não é exatamente a mesma celebração praticada pelos antigos celtas. Hoje, há crianças que participam apenas pela diversão, pelas fantasias e pelos doces, sem qualquer intenção religiosa.
Mas conhecer a origem de uma tradição nos ajuda a compreender os símbolos que ela carrega. E, principalmente, nos permite fazer escolhas mais conscientes sobre aquilo que queremos trazer para dentro da nossa casa.
Porque nem tudo o que se tornou popular precisa, necessariamente, fazer parte da nossa vida familiar.
O imaginário também educa
Quando uma criança veste uma fantasia, ela não está apenas cobrindo o corpo com uma roupa diferente. Ela está experimentando uma imagem, assumindo um papel, brincando de ser alguém ou alguma coisa.
Isso faz parte da infância. As crianças precisam brincar de faz de conta, inventar histórias, imaginar mundos e experimentar personagens. O imaginário é um campo precioso para o desenvolvimento infantil.
Mas justamente por ser tão precioso, merece o nosso cuidado.
As imagens que oferecemos às crianças, as histórias que contamos, os personagens que admiramos e as brincadeiras que incentivamos participam da construção de sua sensibilidade. Não determinam, sozinhos, quem elas serão, é claro. Mas ajudam a formar suas referências, a despertar seus interesses e a estabelecer aquilo que lhes parece desejável, admirável ou digno de imitação.
Por isso, eu me pergunto: quando escolhemos vestir uma criança de demônio, de criatura infernal ou de personagem cuja identidade está associada ao mal, o que estamos querendo comunicar?
Será que pensamos nisso ou apenas seguimos o que todo mundo está fazendo?
Não estou dizendo que uma criança fantasiada de monstro vai se tornar má. Seria absurdo afirmar isso. Estou falando de algo mais profundo: da responsabilidade que temos na escolha das imagens que apresentamos aos nossos filhos e daquilo que, por meio delas, fazemos parecer divertido, atraente ou admirável.
Se queremos que nossos filhos aprendam a amar o bem, por que não lhes oferecemos mais oportunidades de contemplar o bem? Se queremos que reconheçam a beleza, por que não alimentamos seu imaginário com imagens belas? Se desejamos que desenvolvam um caráter virtuoso, por que não lhes apresentamos pessoas cuja vida seja digna de admiração?
A infância é um tempo de plantar referências. E não precisamos esperar que os filhos cresçam para começar esse trabalho.
Se você não deseja vestir seu filho de santo, que tal apresentá-lo a um grande explorador, a um cientista, a um inventor, a um escritor ou a alguém que tenha dedicado a vida a ajudar os outros?
Que tal uma fantasia de Santos Dumont, para despertar a curiosidade sobre a aviação? De Marie Curie, para conversar sobre ciência e perseverança? De um personagem histórico que lutou pela liberdade, de um médico que salvou vidas ou de alguém que enfrentou grandes dificuldades para realizar algo bom?
E, se a sua família é cristã, por que não aproveitar a ocasião para apresentar às crianças a vida dos santos?
São homens e mulheres reais, com histórias de coragem, generosidade, inteligência, sacrifício e amor. Pessoas que nos mostram, com suas vidas, que a grandeza humana não está em assustar os outros, mas em aprender a amar, servir e fazer o bem.
Imagine uma criança que, em vez de apenas escolher uma fantasia assustadora porque os colegas também escolheram, começa a conhecer a história de alguém que transformou o mundo. Imagine as perguntas que podem surgir, as conversas que podem nascer e a curiosidade que pode despertar.
Uma fantasia pode ser muito mais do que uma fantasia. Pode ser o começo de uma história, de uma descoberta, de uma admiração que acompanhará essa criança por muitos anos.
E veja: não precisamos transformar toda brincadeira numa aula. A infância também precisa de leveza, espontaneidade e alegria. O que precisamos é compreender que diversão e formação não são inimigas. É perfeitamente possível oferecer às crianças brincadeiras divertidas que, ao mesmo tempo, ampliem seus horizontes.
Não precisamos seguir o mundo para pertencer a ele
Talvez essa seja a parte mais difícil da educação dos filhos: ter coragem de fazer escolhas diferentes daquelas que todos parecem estar fazendo.
Às vezes, queremos que nossos filhos participem de tudo para que não se sintam excluídos. Não queremos que sejam os únicos a ficar de fora, que pareçam estranhos aos olhos dos colegas ou que tenham de explicar por que nossa família decidiu agir de outra maneira.
Eu compreendo isso. Também sou mãe e sei que educar exige muito mais do que ter boas intenções. Exige discernimento, paciência e, algumas vezes, a coragem de sustentar uma escolha mesmo quando ela não é a mais popular.
Mas educar é justamente isso: ajudar nossos filhos a compreender que nem tudo o que todos fazem é necessariamente bom, assim como nem tudo o que é diferente precisa ser rejeitado.
Queremos formar pessoas capazes de pensar, avaliar e escolher. Pessoas que não sejam conduzidas apenas pela pressão do grupo, pelas modas ou pelo desejo de serem aceitas.
E essa formação começa nas pequenas decisões da vida cotidiana, muito antes das grandes escolhas da adolescência e da vida adulta.
Começa quando explicamos por que determinado conteúdo não é adequado. Quando escolhemos uma história em vez de outra. Quando ensinamos nossos filhos a admirar a coragem, a bondade, a honestidade e a beleza. Quando não nos limitamos a proibir, mas oferecemos algo melhor no lugar.
Porque não basta dizer à criança o que ela não deve amar. Precisamos ajudá-la a descobrir aquilo que merece seu amor.

Uma casa que ensina a olhar
Tenho pensado cada vez mais em como a atmosfera de uma casa educa. Não apenas pelas regras que estabelecemos, mas por aquilo que escolhemos colocar diante dos olhos e do coração dos nossos filhos.
Os livros que deixamos ao alcance das mãos, as músicas que ouvimos, as conversas à mesa, os passeios pela natureza, as histórias de família, as obras de arte, as pessoas que admiramos. Tudo isso vai compondo, pouco a pouco, um ambiente que alimenta a inteligência, a sensibilidade e o caráter.
É por isso que acredito tanto na educação do imaginário. Ela nos lembra que não estamos apenas transmitindo informações às crianças. Estamos ajudando a formar a maneira como elas percebem o mundo, reconhecem o que é bom e encontram sentido naquilo que vivem.
E isso não acontece somente nos grandes momentos. Acontece todos os dias, nas escolhas aparentemente pequenas que fazemos dentro de casa.
Não precisamos ter uma família perfeita, uma biblioteca extraordinária ou condições especiais para começar. Precisamos, antes de tudo, estar atentos. Precisamos nos perguntar, de tempos em tempos: aquilo que estamos oferecendo aos nossos filhos os ajuda a crescer em inteligência, discernimento, sensibilidade e virtude?
Quando pensamos no Halloween, portanto, a questão não precisa ser apenas se vamos participar ou não de uma festa. Podemos aproveitar a ocasião para fazer uma pergunta muito mais importante: que tipo de imaginário estamos ajudando a construir na infância dos nossos filhos?
Eu prefiro que eles aprendam a admirar os santos, os heróis, os sábios, os homens e as mulheres que fizeram o bem. Prefiro que encontrem beleza na criação, coragem nas histórias de superação e inspiração naqueles que viveram por algo maior do que si mesmos.
Não porque eu queira privá-los da fantasia, da brincadeira ou da alegria. Mas porque desejo que tenham muitas coisas boas para imaginar, conhecer e amar.
Afinal, a infância passa. As fantasias são guardadas, os doces acabam e as festas ficam para trás. Mas as imagens, as histórias e os exemplos que oferecemos aos nossos filhos podem permanecer com eles por muito tempo.
E, se temos a responsabilidade de ajudá-los a escolher o que levarão consigo para a vida, por que não começar oferecendo o que há de melhor?
Que nossas casas sejam lugares onde a inteligência é despertada, a sensibilidade é cultivada e o caráter é formado. Lugares onde as crianças aprendam, desde cedo, que o bem é digno de amor, que a beleza merece ser contemplada e que a verdade vale a pena ser buscada.
Porque educar também é isso: ensinar uma criança, pouco a pouco, a reconhecer aquilo que merece ser amado.
E essa é uma tarefa bonita demais para ser deixada ao acaso.
Por Catiane Longhi – Educadora Familiar
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Fundadora do Resgate Feminino; projeto ligado à TL\TV Flórida-USA

