CANÇÃO DO EXÍLIO
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá; as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho à noite, mais prazer encontro eu lá; minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. (DIAS, Gonçalves, 1980, pp. 11 e 12)
Sem dúvida, o texto mais conhecido da Literatura brasileira é de Gonçalves Dias (1823-1864). Nele, o autor descreve de maneira idêntica a outros saudosistas as belezas desse país rodeado pela natureza exuberante. Inegavelmente, o poema traduz o sentimento de quem se vê longe de casa. A evidente saudade que o poeta sentia do Brasil vem do período em que esteve na Europa para estudos, época em que também teve contato com a obra de Friedrich Schiller (1759-1805), um dos principais precursores do Romantismo.
Inspirado pelas correntes literárias europeias, Gonçalves Dias trouxe para o Brasil todo o subjetivismo romântico. Consequentemente, suas poesias marcaram o início desse estilo por aqui, levando o poeta a fazer parte da primeira geração de românticos. O estilo contribuiu para a identidade cultural de nossa Literatura ao mesmo tempo em que exaltava os valores nacionais e nossa natureza.
Na Europa, a corrente romântica surgiu no final do século XVIII, ao passo que seu apogeu ocorreu na metade do século XIX. Iniciado na Alemanha, na Inglaterra e na França, esse movimento prezava a liberdade criativa; caracterizou-se pelo lirismo, pela idealização do amor, pela fuga da realidade e, sobretudo, pela ênfase na subjetividade.
Por sua vez, na Literatura brasileira, o indígena foi retratado com bravura e força, simbolizando a união de culturas tão diferentes. Na Pintura, por outro lado, o foco foi a exaltação da natureza diante da pequenez humana, a dramaticidade da emoção e a atração pela Idade Média.
Sob autoria de Goethe (1749–1832), na Alemanha, ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’ é, com toda a certeza, a obra inaugural mais influente do período. Posteriormente, na França, Victor Hugo (1802-1885) consolidou-se como o grande representante do movimento; na Inglaterra, o destaque foi Lord Byron (1788-1824); assim como em Portugal brilharam Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco. No entanto, no Brasil, os grandes nomes foram Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Castro Alves.
Paralelamente, na Pintura, a obra de Albert Bierstadt (Fig. 1) deixa evidente o enaltecimento do mundo natural. As montanhas parecem alcançar o céu, enquanto as árvores se impõem diante de uma cena grandiosa. Além disso, as nuvens carregadas dão a sensação de tempestade iminente. Logo, os pequenos animais na parte inferior apenas observam o espetáculo.
Ainda mais importante notar que o movimento deixou marcas profundas na Filosofia. Friedrich Schiller teve grande relevância nesse campo; o escritor defendia a educação por meio da estética, ideia que acabou por ecoar nos românticos brasileiros. Para Schiller:
“A formação da sensibilidade é, portanto, a necessidade mais premente da época, não apenas porque ela vem a ser um meio de tornar o conhecimento melhorado eficaz para a vida, mas também porque desperta para a própria melhora do conhecimento.” (SCHILLER, 2002, p. 47)
Em ‘A Educação Estética do Homem’, o filósofo argumenta que o ser humano atualmente está em meio a impulsos sensíveis e racionais. Desse modo, por meio da Arte é possível harmonizar essas forças.
Do mesmo modo, influenciado pelo Romantismo europeu, Henry David Thoreau (1817-1862) tornou-se um grande expoente do Transcendentalismo nos Estados Unidos. Em ‘A Desobediência Civil’, defendeu a vida simples e a resistência aos governos. Por essa razão, a recusa à autoridade do Estado é o alicerce de seu pensamento:
“Conforme diz, no entanto, se nego a autoridade do Estado quando ele me apresenta a conta dos impostos, logo ele irá se apossar de meu patrimônio e dissipá-lo, molestando-me, assim, interminavelmente, bem como aos meus filhos. Isso é injusto.” (THOREAU, 2009, p. 27)
Para Thoreau, as leis eram injustas; por isso, o cidadão deveria desafiá-las:
“Se a alternativa for a de manter todos os homens justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará em sua escolha. Visto que se mil homens se recusassem a pagar seus impostos este ano, esta não seria uma medida violenta e sangrenta […] Esta é, de fato, a definição de uma revolução pacífica.” (THOREAU, 2009, p. 24)
Afinal, o filósofo acreditava que apenas o indivíduo é capaz de discernir o certo do errado. Assim sendo, seu pensamento acabou por influenciar movimentos de resistência não violenta de líderes como Gandhi e Martin Luther King Jr.
Similarmente, Schiller enfatizava a liberdade individual, deixando a provocação:
“Mas, como o artista se resguarda das corrupções de sua época, que o envolvem por todos os lados? Desprezando o seu juízo. Deve elevar os olhos para a sua dignidade e lei, não os baixar para a felicidade e a necessidade.” (SCHILLER, 2002, p. 50).
Em síntese, o contexto de Schiller era o idealismo alemão, ao passo que o Transcendentalismo de Thoreau focava na vida simples e conectada à natureza. Todavia, em ambos é perceptível a proposta de revolução individual em favor da consciência moral.
Por Rosângela Vig.
Referências bibliográficas:
-
- BUENO, Silveira. Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Ed. FTD, 2002, 3ª Ed.
- DIAS, Gonçalves. Nossos Clássicos, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1980.
- GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, 4ª Ed.
- HAUSER, Arnold. História social da Literatura e da Arte. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003.
- NICOLA, José de. Literatura Portuguesa, da Idade Média a Fernando Pessoa. São Paulo: Ed. Scipione, 1990.
- NICOLA, José de. Literatura Brasileira, das origens aos nossos dias. São Paulo: Ed. Scipione, 1990.
- SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do Homem. 4ª edição. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.
- THOREAU, Henry David. A Desobediência Civil. São Paulo: L&PM Pocket, 2009.

