Dircéa Mountfort
Sonhar é acordar-se para dentro:
De súbito me vejo em pleno sonho
E no jogo em que todo me concentro
Mais uma carta sobre a mesa ponho.
(QUINTANA, 2007, p.73)
Certamente, a Arte pode aflorar dos sonhos mais lindos, colhidos do pensamento do artista no delírio do momento da criação. De fato, um universo inteiro emerge do êxtase de seu deslumbramento. Não há, outrossim, forma melhor de descrever o processo de produção de uma obra, desde a concepção da ideia até o último traço. E, ainda mais, o observador se encanta ao contemplar um trabalho elaborado sob a égide desse pensamento profundo. Nesse sentido, o deleite seria a descrição que mais se aproxima ao observar a produção da artista brasileira Dircéa Mountfort. Suas aquarelas são frutos de uma profunda observação da natureza e, inegavelmente, é perceptível o encanto da artista pela Arte.
Entre as várias obras que chamam a atenção, a Floresta Alagada (Fig. 1) permite ao olhar um passeio por entre os galhos das árvores, em meio às folhas. O tronco caído desce intercalando os galhos, como se a própria natureza o tentasse escorar. Semelhantemente, a água, como um espelho, reflete a vida acima em cada detalhe; e o céu parece tentar levar sua luz por qualquer brecha que encontrar. Em toda a cena, a noção de claro e de escuro nas folhas e nos troncos é impecável e arrebata o olhar para dentro do lugar. Assim, a natureza passeia pelo espaço em branco que a artista matiza com destreza, como no tronco de sua Nogueira (Fig. 3), que parece se elevar gentilmente em meio às folhas.
O domínio da cor fica evidente nas mãos da artista, sobretudo em obras como o Chrysanthemum Dendranthema (Fig. 4), cujo amarelo delicado se destaca, com tonalidades mais escuras ou mais claras para as sombras e para a incidência de luz. Igualmente, a mesma habilidade se destaca na figura 5, cujas uvas apresentam a luz e a sombra na medida certa. Entre as folhas, percebe-se que algumas estão ressecadas e perderam a tonalidade verde — fato que, aliás, condiz com o grau de realismo da obra.
Nascida em Sete Lagoas, no estado de Minas Gerais, a artista é graduada em Ciências Sociais pela PUC, São Paulo, e pós-graduada em História. Iniciou seu caminho pela Arte a partir de 1970, com obras em óleo e pastel. Posteriormente, aprimorou seu trabalho no Paço das Artes e no Museu de Arte Contemporânea, e estudou com nomes como Aldemir Martins e Cezira Carpanezzi.
A leveza de seu trabalho em aquarela evidencia o perceptível encantamento da própria artista com relação à natureza e às imagens naturais. Observar seu trabalho é, enfim, como se transportar para um devaneio e perceber o som das águas fluindo, o rumorejar das folhas inquietas pelo vento e o perfume das frutas e das flores que envolvem o ar.
O vento associa de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se…
invoco um tom quente e vivo
– o lacre num envelope? –
E a névoa, então, de um outro século
No seu frio manto me envolve.
(QUINTANA, 2007, p.45)




cm.

Por Rosângela Vig.
Referências:
- QUINTANA, Mário. Quintana de Bolso. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007.
- MOUNTFORT, Dircéa. Site oficial: https://dircea.art.br/#obras (último acesso em 5 de agosto de 2026).

