Pela primeira vez, mais de dez festivais ocupam o Centro histórico ao mesmo tempo, e a cidade aposta que isso pode mudar mais do que só a agenda cultural de setembro.
Entre os dias 16 e 27 de setembro, o Rio de Janeiro vai fazer uma aposta que nenhuma outra gestão municipal tinha feito antes por lá: transformar o Centro da cidade em palco de mais de dez festivais simultâneos, reunidos pela primeira vez sob um nome só,a Semana de Arte do Rio. Literatura de periferia, circo, cinema negro, moda, música, teatro. Tudo isso ocupando ruas, teatros e praças que, na maior parte do ano, esvaziam depois das seis da tarde.
A intenção declarada não é sutil: usar a cultura como vetor de desenvolvimento, misturando arte com turismo, urbanismo e economia criativa. Em outras palavras, a cidade está apostando que arte não é só experiência, é também infraestrutura. Uma forma de fazer um bairro voltar a ter gente caminhando nele depois do expediente.
Há algo de generoso nessa ideia e algo de arriscado também. Generoso porque reconhece que uma cidade não vive só de prédios e de fluxo de carros, ela também precisa de motivo para ser habitada, de razão para alguém atravessar a cidade à noite só para ver uma peça ou ouvir um sarau. Arriscado porque, quando a arte vira estratégia de revitalização urbana, ela corre o risco de virar decoração: bonita o suficiente para atrair investimento, mas esvaziada do incômodo que a boa arte sempre carregou.
A pergunta que vale a pena fazer, então, não é se o Centro vai ficar mais movimentado durante essas duas semanas, provavelmente vai. É o que sobra depois que as luzes se apagam e os festivais desmontam suas estruturas. Se a arte só ocupa a cidade quando está sendo usada como vitrine, ela não mudou nada de fato, só emprestou brilho por um tempo determinado.
Talvez a verdadeira prova da Semana de Arte do Rio não aconteça nesses onze dias de setembro, mas seis meses depois, quando alguém perguntar: aquele teatro continua aberto? Aquela praça continua com gente? Ou tudo voltou a ser o de sempre, assim que o holofote saiu de cima?
Por Zilamar Takeda.
Informações: Rio de Janeiro Hoje

