Sobre o hábito de anunciar as próprias falhas antes que alguém as encontre, e o que isso revela sobre o nosso medo de ocupar espaço.Há um gesto que se repete algumas vezes que já nem notamos mais: o artista se encolhe antes de mostrar. Pede perdão pelo que fez, como se criar fosse uma invasão que precisa ser justificada
O artista que pede desculpas antes de mostrar o trabalho
Repare como quase todo artista, hoje, faz uma espécie de reverência antes de mostrar o que fez. “Ainda não está pronto.” “É só um rascunho.” “Não sei se ficou bom.” A obra chega precedida de um pedido de desculpas, como se exibir algo sem antes se encolher fosse falta de educação.
Isso não é modéstia. É medo travestido de modéstia.
Existe uma diferença entre humildade e autoextermínio antecipado. A humildade reconhece os limites do trabalho. O autoextermínio antecipado mata a obra antes que alguém tenha a chance de matá-la, porque doer menos quando a crítica vem de dentro do que quando vem de fora.
Mas a arte nunca nasceu pedindo licença. Ela invade. Ocupa parede, ocupa silêncio, ocupa a atenção de alguém que não pediu para ser incomodado. Um quadro não pergunta se pode ser visto. Ele simplesmente está lá, exigindo um lugar no seu campo de visão, teimoso como uma pedra no meio do caminho.
Talvez a gente tenha confundido duas coisas: dúvida e desculpa. Dúvida é saudável, é o motor que faz o artista tentar de novo, refazer, insistir. Desculpa é outra coisa: é a tentativa de já negociar a rejeição antes que ela aconteça, de garantir um álibi pronto para o caso de não agradar.
Ninguém pede desculpa por uma tempestade. Ela simplesmente cai, sem se justificar, sem pedir aprovação de quem está embaixo dela. Boa parte da arte que fica na memória tem esse mesmo desacato: ela não perguntou se podia.
Talvez o primeiro gesto criativo de qualquer artista, antes até do primeiro traço, devesse ser esse: parar de pedir desculpas pelo direito de ocupar espaço.

