Esta terra, senhor, me parece que, da ponta que mais contra o sul vimos, até
outra ponta que contra o norte vem, do que nós deste porto pudemos avistar,
será tamanha que haverá nela bem vinte ou 25 léguas por costa. Tem, ao
longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, umas vermelhas, outras
brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De
ponta a ponta, é tudo praia palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender olhos,
não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito extensa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa
alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém a terra em si é de muito bons
ares, frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo
de agora os achamos como os de lá. (Pero Vaz de Caminha in MASSAUD,
2002, p.17)

O Renascimento e o Descobrimento do Brasil caminharam juntos. A curiosidade do ser humano, os avanços tecnológicos e a busca por novas rotas mudaram o curso da História, tornando o mundo um pouco menor. A Carta de Pero Vaz de Caminha, cujo trecho está acima, é o testemunho do encantamento pela nova terra encontrada. A expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, composta de 13 embarcações, chegou ao Brasil em 22 de Abril de 1500, na região da atual cidade de Porto Seguro, na Bahia. Entretanto anteriormente à chegada da expedição portuguesa, o Brasil era habitado por povos indígenas que deixaram um grande legado artístico e cultural (Fig.1).

Essa Arte, denominada Arte Pré-Cabralina, tinha acima de tudo um sentido de utilidade, englobava acima de tudo a espiritualidade, a sabedoria ancestral e os rituais, com peças que passavam não somente pelo campo da Arte, mas também pelo campo do Artesanato. Esse rico legado, encontrado em diferentes regiões do Brasil, deixou claro que nas sociedades indígenas havia uma preocupação com a beleza, visto principalmente em colares, tangas, máscaras, objetos rituais e pintura corporal; e cada comunidade possuía sua forma distinta de se expressar. Entre essas produções, ficaram nítidos dois padrões diferentes de produção, a Fase Marajoara e a Cultura Santarém.

Aproximadamente entre o ano 400 e 1.400 d.C. desenvolveu-se a Cerâmica Marajoara, na região da Ilha de Marajó, no Pará. Entre os objetos dessa fase foram encontrados vasos domésticos, cerimoniais e fúnebres, bem como estatuetas e incisões em alto relevo. Nas pinturas viu-se a preocupação com simetria nas representações de figuras humanas e de animais. Nas imagens 3 e 4 é possível perceber essa busca pela simetria e pela estilização das figuras humanas retratadas. Há preocupação com o rigor geométrico nos detalhes das imagens, com linhas paralelas e alinhadas.

A Cultura Santarém prevaleceu na região do Rio Tapajós, entre 1000 e 1500 d.C. A Cerâmica produzida nesse local recebeu alto grau de realismo e as figuras humanas e de animais destacaram-se pelo dinamismo e pela aproximação com a realidade, como as estatuetas variadas. Os vasos de cerâmica eram ricamente decorados com relevos de figuras humanas e de animais, além de receberam pinturas. Na figura 5, pode-se perceber o grau de realismo dos detalhes, bem como a preocupação com simetria. É possível perceber que há a idéia de movimento na imagem.

Entre as manifestações culturais, também é importante destacar a Arte plumária, vista na produção de adornos feitos com plumas e penas de aves; a pintura corporal; os trançados e a tecelagem, na produção de cestos, esteiras, e redes com fibras, sementes e cipós.

É importante ainda lembrar o legado da Arte Rupestre brasileira, disposta em várias regiões do país, contando com ilustrações, artefatos, ferramentas, vasilhas, desenhos em cavernas e ao ar livre. Tais produções, embora não tenham uma data precisa, variam entre 30.000 e 8.000 a.C. e retrataram hábitos, rituais e cenas do cotidiano dos povos dessas regiões.

Em todas essas manifestações é possível perceber o espírito criativo e a nítida a noção estética humana. Esse legado deixa não somente a Arte em si, mas fica muito da História desses povos, da forma como viviam e da religiosidade retratada em seus rituais.

Fig. 2 – Serra da Boa Vista, onde foram encontrados vestígios arqueológicos.
Link da imagem:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_pr%C3%A9-cabralina_do_Brasil#/media/Ficheiro:Serra_da_Boa_Vista.JPG
Figura 3 – Pintura rupestre dos indígenas pré-cabralinos em Cachoeira Resplendor, Pará.
Link da imagem:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_pr%C3%A9-cabralina_do_Brasil#/media/Ficheiro:Cachoeira_resplendor_pintura_rupestre.jpg
Figura 4 – Inscrições paleolíticas no Costão do Santinho, em Florianópolis, Santa Catarina
Link da imagem:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Figuras_rupestres,_Cost%C3%A3o_do_Santinho,_Florian%C3%B3polis_3.JPG
Figura 5 – Cerâmica produzida por antigas sociedades complexas que viviam na região da Santarém, no Pará. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
Link da imagem:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_pr%C3%A9-cabralina_do_Brasil#/media/Ficheiro:Vaso-santar%C3%A9m.JPG

Por Rosângela Vig.

Referências:
  • BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  • CAMÕES, Luís de. Lírica – Épica – Teatro – Cartas. São Paulo: Editora Moderna, p. 81 1980.
  • CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. Publifolha, S.Paulo, 2014.
  • FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  • GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  • HAUSER, Arnold.História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
  • MASSAUD, Moisés. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo: Editora Cultrix, 2002.
  • MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. São Paulo: Ed.Moderna, 1988.
  • PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Abril, 2005.

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Graduada em Letras, com Mestrado em Comunicação e Cultura, Rosângela Vig é artista plástica e professora de História da Arte. Também é crítica de Arte, escreve sobre a Arte para sites. Rosângela Vig tem suas pinturas e desenhos expostos e premiados em revistas e museus nacionais e internacionais. medalhas de Ouro em Dubai e na Alemanha (2015); Menção Honrosa em Portugal, Romênia e Londres (2016); Ouro no Salão Internacional dos Artistas Plásticos (2016); exposições em Paris (Louvre), Firenze, Noruega, Portugal, Liechtenstein, OAB (São Paulo), Elephant Parade, e Livraria Cultura (2016-2017). Artmosphera não é financiada por nenhum recurso público. Com seu apoio expandimos nossos projetos, mantendo o acesso gratuito à cultura viva, crítica e contemporânea. Assine nossa NEWSLETTER para receber oportunidades e novidades para artistas, colecionadores e admiradores.

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