Quando pensar e fazer deixam de ser opostos

Há um preconceito antigo, quase enraizado no senso comum, segundo o qual pensar e fazer pertenceriam a mundos separados: de um lado, a inteligência que concebe; de outro, a mão que apenas executa. Contudo, é justamente esse preconceito que o sociólogo norte-americano Richard Sennett se propõe a desmontar em O Artífice, obra que, ao recuperar a história do trabalho manual e da produção artesanal ao longo dos séculos, acaba por lançar luz sobre algo muito maior: a própria natureza da criação artística. Ademais, o livro não se limita a uma reconstituição histórica; trata-se, sobretudo, de um convite a repensar o lugar do fazer bem-feito numa sociedade que, atualmente, tende a valorizar a rapidez e o resultado imediato em detrimento da paciência e do domínio técnico.

Primeiramente, convém situar o argumento central de Sennett, pois é a partir dele que toda a reflexão sobre a arte se desdobra. O autor contesta a separação clássica, proposta por Hannah Arendt, entre o animal laborens, reduzido à repetição mecânica do trabalho, e o homo faber, figura elevada à condição de juiz e criador da vida em comunidade. Segundo Sennett, essa distinção, embora influente, acaba por rebaixar injustamente quem trabalha com as mãos, como se ali não houvesse pensamento algum. Inegavelmente, o gesto técnico carrega consigo um raciocínio próprio, silencioso, que se aprimora pela repetição e pelo erro. Assim sendo, fazer é, também, uma forma legítima de pensar, e é exatamente essa premissa que sustenta toda a argumentação do livro.

Do artífice público ao aprendiz das guildas

Posteriormente, o autor recua no tempo para narrar como essa relação entre saber e produzir foi se transformando historicamente, e é nesse trecho que a obra se aproxima, com mais nitidez, do universo da arte. Na Grécia arcaica, o artífice, o demioergo, era uma figura pública, respeitada por unir a destreza técnica a uma função social reconhecida; ele fazia parte da vida da comunidade tanto quanto o sacerdote ou o magistrado. Todavia, com Aristóteles, essa valorização recua, e o trabalho manual passa a ser visto como atividade menor, indigna de quem se dedica à contemplação e ao pensamento puro. Séculos mais tarde, na Idade Média, as guildas resgatam parte dessa dignidade perdida, organizando a transmissão do ofício por meio de uma autoridade quase paterna do mestre sobre o aprendiz, fundada na honra e no compromisso mútuo, e não em contratos frios.

O Renascimento e o preço da originalidade

É precisamente no Renascimento, contudo, que se encontra o ponto mais rico da obra para quem se interessa por arte. Nesse período, surge a figura do artista solitário, e Sennett recorre ao exemplo de Benvenuto Cellini para ilustrá-la , alguém que rompe com a transmissão anônima e coletiva da guilda em nome da originalidade individual. À primeira vista, esse rompimento parece um avanço, uma libertação do talento pessoal em relação às amarras da tradição corporativa. Entretanto, o autor demonstra, com notável sensibilidade histórica, que essa conquista teve um preço alto: o artista tornou se mais vulnerável, mais dependente da vontade arbitrária de mecenas, e menos amparado pela rede de solidariedade que sustentava o artesão comum. Inclusive, o caso da célebre oficina de Stradivari é lembrado como advertência: por concentrar todo o conhecimento em um único gênio, incapaz ou pouco disposto a verbalizar seus segredos, os métodos de fabricação de seus instrumentos simplesmente desapareceram com sua morte. Nesse sentido, a genialidade isolada, tão celebrada pela tradição moderna da arte, revela-se surpreendentemente frágil quando comparada à continuidade discreta e coletiva do saber artesanal.

A técnica moderna e a perda do contato com a matéria

Ao passo que a narrativa histórica avança, Sennett também discute, com igual rigor, o modo como a técnica moderna interfere na sensibilidade artística e material. Segundo o autor, quando o desenho arquitetônico passa a ser feito exclusivamente na tela do computador, por exemplo, perde-se algo do contato tátil entre a mão e a matéria, um vínculo que antes permitia ao criador sentir a resistência do mundo físico e aprender com ela. Dessa forma, a obra sugere que a verdadeira consciência material, aquela que reconhece na madeira, na pedra ou no tijolo qualidades quase éticas, como a honestidade ou a artificialidade, só se desenvolve pelo contato direto, lento e repetido com os materiais, jamais pela simulação apressada.

Por que vale a pena ler O Artífice

Por todas essas razões, O Artífice merece ser lido por quem se interessa pela arte não como espetáculo isolado de gênios, mas como prática enraizada na paciência, na comunidade e no respeito à matéria. Afinal, o livro não romantiza ingenuamente o passado, tampouco condena a tecnologia; ele apenas insiste, com argumentos sólidos, que a excelência artística, assim como qualquer outro ofício bem-feito, nasce do diálogo constante entre a cabeça e a mão. Portanto, a leitura dessa obra não apenas amplia a compreensão histórica sobre a produção artística, mas também convida o leitor a valorizar, na própria vida cotidiana, o esforço lento e silencioso de fazer bem aquilo que se propõe a fazer.

Por Zilamar Takeda

Fonte:

  • SENNETT, Richard. O artífice. Tradução de Clóvis Marques. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019.
Sugestão de bibliografia complementar

Para quem deseja aprofundar a discussão proposta por Sennett sobre trabalho, técnica e criação artística, recomendam-se as seguintes obras:

  • SENNETT, Richard. O Artífice. Rio de Janeiro: Record, 2009
  • SENNETT, Richard. Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação. Rio de Janeiro: Record, 2012.
  • ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
  • VASARI, Giorgio. Vidas dos Artistas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
  • RUSKIN, John. As Sete Lâmpadas da Arquitetura. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.
  • PYE, David. The Nature and Art of Workmanship. Cambridge: Cambridge University Press, 1968.
  • CRAWFORD, Matthew. O Consertador de Motos e a Filosofia do Trabalho Manual. Lisboa: Objectiva, 2011.
  • HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica, em Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.

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