Alberto Cidraes-Guerreiro-2-2010
Fig. 3 – Alberto Cidraes, Guerreiro, 2010.

História da Cerâmica

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi.
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi.
CORALINA, 2004, p.213)

A poesia da Cora Coralina descreve de forma sutil do que é capaz o espírito criativo. A mente, em ebulição, trafega por insondáveis caminhos quando a capacidade inventiva é maior, não importa o material, não importa a técnica. Feito criança, seus olhos brilham diante do objeto e, aos poucos, a peça vai surgindo em meio às mãos por vezes lambuzadas de barro e de tinta. Sua criação é como um filho único saindo das entranhas. E, nos caminhos da Arte, dentre todas suas manifestações, a Cerâmica é uma das técnicas humanas mais antigas de representação estética.

O ser humano precisou do fogo para desenvolver as técnicas para a criação da cerâmica, uma vez que seu calor era necessário para endurecer a argila. O nome tem origem no grego “kéramos” e significa terra queimada. A origem remonta a entre 16.000 e 25.000 anos. Inicialmente, as peças tinham a funcionalidade de armazenamento de alimentos e líquidos, mas logo evoluiu para a construção, devido à sua durabilidade.

Entre os objetos criados, as peças de revestimento cerâmico apresentam-se na forma de azulejos, potes, tijolos e vasos, entre outros objetos de argila, cuja fabricação não demanda um trabalho detalhista. Por outro lado, peças como xícaras, pratos, vasilhas, estatuetas demandam maior cuidado nos detalhes e apresentam-se por meio de argila, porcelana e grés – material cerâmico de alta densidade e de baixa porosidade. Para utilização em tijolo refratário de fornos e para ferramenta de corte de usinagem, a cerâmica utilizada é mais pura, apresentando maior resistência e, portanto, sua produção requer materiais mais resistentes, como a cerâmica avançada ou de engenharia.

A cerâmica avançada tem alta pureza e alta resistência às altas temperaturas, ao desgaste e à corrosão, além de um maior isolamento elétrico. Sua composição permite o uso em vários campos, como a Eletrônica, a Biomedicina, no setor automobilístico e no aeroespacial.

Fig. 1 – Taça com vidrado. Século IX.

Na Pré-História, a utilização da cerâmica era com a finalidade de armazenamento, ainda mostrando peças rudimentares. Na Antiguidade, para uma queima mais uniforme, têm-se registros de utilização de fornos na Mesopotâmia e no Egito. Da Idade Média veio o desenvolvimento da porcelana chinesa e o uso de objetos de cerâmica revestidos com vidro ou vidrado (Fig. 1). Na imagem, o uso de amarelo contrasta com a seriedade do marrom. A delicadeza do desenho completa o conjunto. Nesse caso, o objeto cerâmico funde-se com a substância vítrea, por meio de aquecimento. Com isso, é possível melhor aspecto decorativo, como também a impermeabilização da peça. Entre os séculos XIX e XX iniciou-se a produção em larga escala de tijolos e revestimentos com o intuito de uso na construção, como telhas. Atualmente, a utilização da cerâmica é possível até mesmo em naves espaciais e na alta tecnologia.

No Brasil Colonial, havia um forno de tijolos em cada engenho de açúcar, tanto para a queima de tijolos como para a produção de louças. Para as famílias com mais posses, a porcelana era importada da Índia. Com a matéria prima abundante no Brasil, a argila, houve um crescimento desse mercado, que passou a ser utilizado de início para a decoração, mas depois, devido à sua durabilidade e à sua qualidade de isolamento do calor, o uso propagou-se principalmente nos estados do Norte, Nordeste e no Rio de Janeiro.

Fig. 2  – Alberto Cidraes, Guerreiro, 2010.

E a Arte brasileira, que sempre se revelou bela, também tem sua história na cerâmica. O brasileiro não cansa de criar e de deixar à mostra seu espírito engenhoso. O colorido das peças artesanais está presente em várias feiras de artesanato que se espalham por todo o país, levando mais que a alegria da produção, mas o meio de sustento de muitos. Entre as peças, há pessoas comuns retratadas pelas mãos do artífice em barro, com chapéus, roupas coloridas; há animais, charretes, casinhas e cenas do cotidiano de uma cultura.

Na Escultura, a cerâmica tem artistas exemplares, entre os quais pode-se citar Alberto Cidraes, natural de Portugal, que vive na cidade de Cunha, no interior de São Paulo. Seus Guerreiros (Figuras 2 e 3) têm olhar distante e sério, sob seus capacetes. Suas formas são retilíneas e a preocupação do artista foi em esboçar os detalhes, levando à obra o sentido de contemporaneidade.

A Arte é o fruto de uma combinação entre o uso da cor e da forma e o material. A alma de cada produção é entretanto o resultado da mão que tocou a matéria prima e a tornou obra, por meio de sua sensibilidade e sua forma de interpretar o mundo ao redor, que é única.

1 – Vídeo sobre como produzir a cerâmica a partir do barro.

2 – Vídeo sobre produção de artesanato a partir de tijolo

 

Referências bibliográficas:

ARTESANATO EM BARRO – Tesouro do Jequitinhonha. Belo Horizonte: Ministério da Cultura de Minas Gerais, 2024. CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas. São Paulo: Edusp, 3a. Ed., 2000. CORALINA, Cora. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2004. GOMBRICH, E.H.. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, 4a. Ed.. HAUSER, Arnold. História social da Literatura e da Arte. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. NICOLA, José de. Literatura Portuguesa, da Idade Média a Fernando Pessoa. São Paulo: Ed. Scipione, 1990. NICOLA, José de. Literatura Brasileira, das origens aos nossos dias. São Paulo: Ed. Scipione, 1990.

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Graduada em Letras, com Mestrado em Comunicação e Cultura, Rosângela Vig é artista plástica e professora de História da Arte. Também é crítica de Arte, escreve sobre a Arte para sites. Rosângela Vig tem suas pinturas e desenhos expostos e premiados em revistas e museus nacionais e internacionais. medalhas de Ouro em Dubai e na Alemanha (2015); Menção Honrosa em Portugal, Romênia e Londres (2016); Ouro no Salão Internacional dos Artistas Plásticos (2016); exposições em Paris (Louvre), Firenze, Noruega, Portugal, Liechtenstein, OAB (São Paulo), Elephant Parade, e Livraria Cultura (2016-2017). Artmosphera não é financiada por nenhum recurso público. Com seu apoio expandimos nossos projetos, mantendo o acesso gratuito à cultura viva, crítica e contemporânea. Assine nossa NEWSLETTER para receber oportunidades e novidades para artistas, colecionadores e admiradores.

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