Entre o êxtase e a contenção – o Carnaval como rito, imagem e disputa simbólica
O Carnaval, com frequência reduzido a espetáculo turístico ou explosão episódica de alegria coletiva, é, antes de tudo, um dispositivo cultural de longa duração. Sua existência se articula com o calendário cristão, mas sua imaginação simbólica precede o cristianismo. Celebra-se nos dias que antecedem a Quaresma, período de seis semanas que prepara espiritualmente para a Páscoa cristã, instaurando uma tensão estrutural entre excesso e renúncia, corpo e espírito, profano e sagrado.

A Quaresma rememora o retiro de quarenta dias de Jesus no deserto e a experiência da tentação, propondo práticas de oração, penitência, jejum e abstinência. O Carnaval, situado imediatamente antes desse ciclo de contenção, constitui sua contraparte simbólica: uma zona de permissividade socialmente autorizada. Não se trata apenas de uma festa, mas de um intervalo ritual que dramatiza a ambivalência da cultura ocidental em relação ao desejo.
A própria instabilidade de sua data reforça essa dimensão cósmica. O Carnaval não possui fixidez no calendário civil porque depende da definição móvel da Páscoa cristã, determinada pelo primeiro domingo após a primeira lua cheia que sucede o equinócio de primavera no hemisfério norte (ou de outono, no hemisfério sul). Assim, seu cálculo articula calendário lunar, ciclo solar e liturgia cristã. A Terça-Feira de Carnaval ocorre quarenta dias antes do Domingo de Ramos, isto é, quarenta e sete dias antes da Páscoa cristã, instaurando uma contagem regressiva simbólica que culmina no silêncio quaresmal.
Arqueologia do excesso no carnaval
As origens do Carnaval dissolvem-se nas camadas mais remotas da experiência ritual humana. Muito antes da institucionalização cristã, civilizações do Mediterrâneo celebravam festivais de inversão, fertilidade e renovação. No Egito Antigo, na Grécia Antiga e na Roma Antiga, ritos ligados ao ciclo agrícola e ao renascimento da natureza instauravam momentos de suspensão das hierarquias ordinárias.
As Saturnálias romanas, dedicadas a Saturno, subvertiam papéis sociais; as Bacanais celebravam Dionísio (ou Baco), divindade do vinho e do êxtase; os mistérios de Elêusis dramatizavam a fertilidade e o retorno cíclico da vida. Em tais celebrações, o corpo não era reprimido, mas mobilizado como potência sagrada. A sexualidade, longe de tabu, integrava o horizonte simbólico da fertilização das colheitas e da continuidade da comunidade.
Não surpreende que a etimologia de “Carnaval” remeta ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium, sugerindo a ideia de “retirar a carne”, gesto que antecipa a abstinência quaresmal. O nome já contém a ambiguidade: celebra-se a carne para, em seguida, abandoná-la.
Nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja compreendeu que erradicar tais festividades seria tarefa inviável. Optou, então, por reinterpretá-las à luz da nova doutrina. Ao invés de suprimir completamente os ritos pagãos, reconfigurou-os no interior do calendário litúrgico. Contudo, a forma festiva, marcada pela exuberância e pela teatralização dos excessos persistiu, revelando a dificuldade histórica de submeter o corpo a uma disciplina exclusivamente espiritual.

A visualidade carnavalesca tem raízes igualmente antigas. Em procissões marítimas da Roma imperial, a imagem da deusa Ísis era conduzida até o mar no início da temporada de navegação. Um barco ornamentado — navigium Isidis — atravessava a cidade em cortejo. Máscaras, alegorias e teatralidade acompanhavam o rito. A genealogia dos carros alegóricos contemporâneos pode ser lida como eco distante dessas procissões: o deslocamento da imagem sagrada transforma-se, ao longo dos séculos, em desfile profano.
A máscara, elemento central dessas celebrações, opera como dispositivo de desidentificação. Ao ocultar o rosto, suspende a individualidade e autoriza a transgressão temporária. O sujeito mascarado não é apenas alguém que se disfarça; ele habita uma zona liminar onde as regras cotidianas se tornam maleáveis. O Carnaval institui, assim, um teatro social no qual a ordem é invertida para, paradoxalmente, reafirmar-se depois.
Transplante e metamorfose no Brasil
No Brasil, o Carnaval chega durante o período colonial, especialmente pelo Rio de Janeiro, então capital do Império. A prática do entrudo português — brincadeira popular marcada por jogos de água, farinha e “limões de cheiro” — tornou-se uma das matrizes da festa. Escravizados e populares ocupavam as ruas, pintavam o rosto e arremessavam substâncias uns nos outros, instaurando uma sociabilidade ruidosa e frequentemente violenta.
Ao longo do século XIX, com a repressão ao entrudo pelas autoridades urbanas para tentar ‘civilizar’ e higienizar o carnaval carioca, a elite passou a organizar bailes fechados, buscando domesticar a festa e alinhá-la aos padrões europeus. Essa tensão entre rua e salão atravessa a história carnavalesca brasileira.
Com o tempo, o Carnaval brasileiro consolidou-se como síntese complexa de matrizes europeias e africanas. Ritmos como samba, frevo, maracatu, axé e afoxé, desfiles de escolas de samba, blocos de rua e trios elétricos compõem um mosaico sonoro e visual que redefine continuamente a festa. O que era rito agrário mediterrâneo torna-se espetáculo urbano tropical, incorporando memórias da diáspora africana e invenções locais.
Carnaval é cultura popular ou indústria simbólica?
Se, em sua origem, o Carnaval emergia como prática coletiva espontânea próxima de expressões como o Bumba Meu Boi, sua configuração contemporânea suscita debates. A profissionalização dos desfiles, o patrocínio empresarial e a transmissão televisiva transformaram a festa em produto cultural de grande escala. O que antes era majoritariamente cultura popular “do povo para o povo” passa a dialogar intensamente com lógicas de mercado, mídia e turismo.
A cultura de massa, nesse sentido, opera como mediação entre criação popular e estrutura empresarial. A elite econômica e institucional influencia formatos, narrativas e estéticas, ainda que a energia criativa continue a brotar das comunidades. O Carnaval torna-se palco de disputas simbólicas: entre espontaneidade e espetáculo, tradição e inovação, autonomia e mercantilização.
Entre a carne e o espírito
No fundo, o Carnaval permanece como metáfora viva da condição humana. Ele não elimina a tensão entre desejo e disciplina; dramatiza-a. Ao conceder um tempo socialmente autorizado para o excesso, prepara o terreno para a abstinência subsequente. Ao celebrar o corpo, lembra a inevitabilidade de sua contenção.
Essa dialética, entre a carne que se exalta e a carne que se retira, constitui o núcleo simbólico da festa. Mais do que um evento festivo, o Carnaval é uma encenação periódica da própria ambiguidade cultural do Ocidente: celebrar para renunciar, transgredir para restaurar, perder-se para reencontrar-se.
Bibliografia recomendada:
- A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – Mikhail Bakhtin
- Dialética do Esclarecimento – Theodor Adorno e Max Horkheimer
- Cultura de Massas no Século XX – Edgar Morin
- Apocalípticos e Integrados – Umberto Eco
- Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem – Marshall McLuhan


1 comentário
Acredito que poucos sequer alcançam o verdadeiro sentido da palavra carnaval. Essa cultura libidinosa que a mídia nos empurra há décadas transforma-nos em máquinas de consumo, egoísmo e autocomiseração. A única saída é beber da ÁGUA VIVA da PALAVRA e permanecer nEla.
² Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele.
Romanos 12:2